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segunda, 27 julho 2020 10:10

Holocausto, o passado impossível, o encontro virtual - desafio do Projeto “Dever de Memória”

O museu de Ana Frank, localizado em Buenos Aires, promove de forma interativa e dinâmica a inclusão social. O centro e o museu permanecem encerrados para visitas presenciais, dadas as condições atuais em consequência da pandemia. Então, a sua equipa ofereceu uma oportunidade única de desenvolver um encontro numa visita guiada virtual ao museu para 30 jovens de 15 países ibero-americanos (Costa Rica, Nicarágua, Guatemala, El Salvador, México, Peru, Equador, Colômbia, Panamá, Chile, Paraguai, Uruguai, Portugal e Espanha). O convite chegou-nos pela mão da equipa do projeto UNESCO “Dever de Memória – Jovens pelos direitos humanos”, do Agrupamento de Escolas de Carregal do Sal, que por sua vez tinha recebido o desafio da parte da DGE, em virtude de terem conhecimento que a temática do ensino e estudo do holocausto é desenvolvida no âmbito do projeto desde 2013-14, a quem estamos gratos. A reunião virtual realizou-se no dia 10 de julho, sexta-feira, pelas 16 horas (de Portugal). Foi relatada a vida e obra de Anne Frank, discutida a discriminação e defendidos os valores da liberdade e da vida, um momento de partilha, entusiasmo, motivação e educação. Valores acrescentados a uma conversa descontraída e, simultaneamente, séria e importante. Uma experiência, de facto, honrosa para todos os participantes. Um projeto nobre, que nos enriquece culturalmente e que nos ajuda a crescer nos valores da empatia e do respeito pelo outro. Um privilégio poder participar!

 “Vós que viveis tranquilos nas vossas casas aquecidas, vós que encontrais regressando à noite comida quente e rostos amigos: considerai se isto é um homem quem trabalha na lama, quem não conhece a paz, quem luta por meio pão, quem morre por um sim ou por um não. Considerai se isto é mulher, sem cabelo e sem nome, sem mais força para recordar, vazios os olhos e frio o regaço como uma rã no inverno. Meditai que isto aconteceu: recomendo-vos estas palavras. Escupi-as no vosso coração, estando em casa, andando pela rua, ao deitar-vos e ao levantar-vos; repeti-as aos vossos filhos. Ou que desmorone a vossa casa, que a doença vos entrave, que os vossos filhos vos virem a cara.”

Este poema é a introdução e, simultaneamente dá o título ao livro Se isto é um Homem, de Primo Levi. Primo Levi foi um sobrevivente de Auschwitz. Escreveu este livro em 1947 e, assim, produziu o livro mais estranho. O relato mais incrível sobre o que se passou nos campos de concentração. Aquilo que hoje chamamos de Holocausto. Estranho porque o livro é seco, é frio, excetuando o poema de introdução. Tudo o que se passa lá dentro é tão terrível. Como se ele nos quisesse dizer, ele que era um engenheiro químico, que estávamos ali na fábrica da morte, que a morte se tinha industrializado. Que a morte não só tinha descido à rua como estava no coração, no sangue, nas veias de toda a gente. Uns chamaram-lhe Holocausto. Palavra imprópria porque significa um sacrifício oferecido a Deus. Aqui não havia nenhum ato sacrificial, divino, religioso. Outros chamaram-lhe Shoah. Que significa desastre, grande catástrofe. Neste poema, parece-nos que está o essencial da questão. Se isto é um homem, se isto é uma mulher. Perguntamo-nos, hoje, ainda seremos homens? Ainda seremos mulheres? Ainda seremos seres humanos? Perguntamo-nos o quê que ficou naquele lugar mórbido e de destruição, naquele lugar inominável. A nossa humanidade?

O diário de Anne Frank, escrito entre 1942 e 1944, quando vivia escondida, em Amesterdão, é o mais lido dos documentos sobre os crimes nazis e fez da sua autora uma das figuras mais conhecidas do nosso tempo. Ao longo dos últimos 70 anos, Anne Frank tornou-se um símbolo universal dos oprimidos, num mundo de violência e tirania. O seu nome invoca humanidade, tolerância, direitos humanos e democracia; a sua imagem é um epítome de otimismo e vontade de viver. Milhões de jovens, em busca da sua própria identidade, veem em Anne a sua porta-voz e a sua heroína. O diário de Anne Frank é tido como um eterno testemunho de coragem e esperança, importante para todos e, muitas vezes, ainda que em segundo plano, também como um documento do Shoah. Identificamo-nos com a luta de Anne pela sua autorrealização, uma luta que muitos adolescentes travam. Frank iniciou a sua armada com uma invulgar clareza dos seus objetivos e uma consciência apurada sobre as suas capacidades. Todos os registos da sua vida documentam, inevitavelmente, o sofrimento dos judeus durante o regime nazi, o caminho percorrido desde a propaganda do ódio ao isolamento, à humilhação, à privação de direitos civis e, finalmente, ao extermínio em massa. “Enquanto a humanidade não sofrer uma metamorfose total”, escreveu Anne Frank, a 3 de maio de 1944, “haverá sempre guerras. O que se construiu, cultivou e cresceu será destruído e à humanidade só resta recomeçar.”. A História não se repete, mas o Homem sim. Prisioneiros dos nossos preconceitos, recomeçamos. Depositamos a nossa esperança na aprendizagem humana, por isso não podemos parar de contar histórias, histórias como a deAnne Frank.

 

Fontes:

 

 

Texto enviado por: Daniela Gomes e Filipe Lourenço (revisão da equipa UNESCO, Dores Fernandes e Josefa Reis)

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